|
Hoje o tema é diferente, lamentavelmente muito diferente. Depois de uma luta intensa, o meu magnifico Sogro abandonou-nos do alto dos seus 80 anos de vida. Há um ano o neto João Pedro desenvolveu este extraordinário testemunho da juventude do Avô Albino. 20 minutos sobre a vida de um herói desconhecido que deixou uma parte de si no ultramar. "Quando os Brinquedos Ficam para Trás" A guerra começou antes de chegar à Guiné. Começou no dia em que deixei de saber o nome dos meus brinquedos. Antes disso, eu ainda era alguém. Depois, passei a ser número. Ninguém dizia “rapaz”, diziam “recruta”, “miliciano”, “número 214”. E eu obedecia. E era um corpo novo dentro de uma farda velha. No barco, o Uíge, olhávamos para trás como se o mar fosse um espelho onde o rosto da mãe ainda nos acenava. E a mão dela tremia. E a nossa também. E ninguém dizia nada porque os homens não choram e nós queríamos tanto ser homens. Chegámos a Farim como quem desce para dentro de um ventre húmido. A terra respirava com os dentes. Diziam-nos “é o K3, é o Oio”, e nós aprendíamos que Chocolate queria dizer morte, que cada som da selva podia ser o último som, que um macaco a gritar parecia gente, que os grilos eram mais certeiros do que a bússola. Havia nomes que não sabíamos pronunciar. Fula. Balanta. Felupe. E um preto que nos ensinava quem era quem, como se ensinar nomes fosse salvar vidas. Algumas usavam flechas, outras armas, outras só olhavam — e olhar, às vezes, matava mais. Fiz o curso de Minas e Armadilhas. Fui ensinado a montar a morte com os dedos. Como quem borda. Mas quando soube que só faltavam cinco meses para regressar, comecei a montar armadilhas como quem monta presépios: com medo de que rebentem em mim. Amarrava o fio, enterrava a granada e rezava para que ela nunca funcionasse. Para que ninguém morresse. Nem eu, nem eles. Tínhamos um campo de futebol. Eu era guarda-redes. Chamavam-me Dus Costa Pereira, porque os pretos não diziam “dois”. E nos jogos ninguém morria, só se caía. Só se sujava a roupa. Só se gritava como meninos outra vez. Mas depois voltava o sangue. E as rajadas. E os estilhaços. Um ferido no peito sangra também pelo cu, dizia o enfermeiro. E a gente aprendia que as calças servem para fazer garrotes. E a carne para ser rasgada. E os mortos para não serem enterrados. Não havia campas para todos. Um dia fomos chamados para uma emboscada. Tudo minas. Restos de gente misturados com folhas. Um pé, uma mão, um osso partido a falar conosco. As estradas eram só buracos. E os buracos não tinham fundo. Disseram-nos: queimem. Queimem tudo. E matem os animais. Não deixem comida para ninguém. Nem para os filhos deles. Nem para os nossos fantasmas. E nós queimávamos. E os olhos das vacas ficavam a olhar para nós como se perguntassem porquê. E nós não sabíamos. No regresso, proíbem-me uma cerveja. Eu, que passei dois anos a morrer, não podia oferecer uma cerveja aos meus. “São soldados”, diziam. Como se eu fosse mais do que eles. Como se eles não tivessem o mesmo medo. No porão do navio vinham os meus irmãos. No porão, onde o sol não entrava. Onde ninguém dizia adeus. Agora, quando me perguntam o que senti, eu não sei. Só sei que queria regressar. Só sei que deixei lá dentro o rapaz que eu era. Que me rasgaram por dentro e não deram pontos. Que voltei, sim, mas faltava-me qualquer coisa. E quando escrevo isto, escrevo para que alguém saiba que eu existi. Que fui. Que matei. Que tive medo. Que montei armadilhas que não rebentavam. E que jogava à baliza. E que a minha macaquinha, quando se zangava, cobria-me a cama de cascas de batata. Este texto é uma criação livremente inspirada no testemunho oral do ex-combatente Albino Sá Carneiro, registado em vídeo pelo seu neto João Pedro Sá Carneiro Vilas Boas. A partir da sua narrativa bruta, marcada por memórias da Guerra Colonial Portuguesa (Guiné, 1966–1968), procurou-se captar o tom íntimo, emocionalmente contido e por vezes fragmentário do relato, transpondo-o para uma crónica. O texto não pretende reproduzir literalmente os factos relatados, mas sim dar forma escrita a uma experiência humana real, preservando a sua densidade emocional, o seu desassossego e a sua dimensão universal de perda, despersonalização e resistência íntima. Trata-se, portanto, de um exercício de memória transformada pela escrita, onde a fidelidade reside não nos pormenores factuais, mas na preservação da voz interior e da verdade emocional do testemunho, recorrentemente esquecido pela sociedade Portuguesa.
0 Comentários
O seu comentário será publicado depois de ser aprovado.
Deixe uma resposta. |
AutorO meu nome é Armando A. Oliveira, sou solicitador de 1993, agente de execução desde 2003 e técnico de cadastro predial desde 2024 Archives
Julho 2025
Categories |
Feed RSS